Neste ano de 2019 o regime de metas de inflação completa vinte anos de existência. Sob esse regime, como se sabe, o Conselho Monetário Nacional é responsabilizado por definir a referida meta, bem como um intervalo mínimo e máximo de tolerância para a inflação acumulada em cada ano, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo, medido pelo IBGE. Implementado em junho de 1999, o regime de metas de inflação constitui um pilar do chamado tripé macroeconômico, junto com o regime de câmbio flutuante e o imperativo de manutenção de superávit primário. Não convém aqui considerar seus fundamentos teóricos, sua arquitetura, e tampouco remeter ao debate que têm se travado acerca de sua efetividade. Ao contrário, cabe apenas contrastar a proposta do regime de metas com a trajetória da inflação brasileira nos últimos anos.

Em 2015 a inflação acumulada extrapolou em muito o teto da meta (6,5%), atingindo 10,67%. Isso ocorreu sobretudo após a liberalização dos chamados preços administrados – preços de produtos que são objeto de regulação estatal -, em particular do preço dos combustíveis e da energia elétrica, que haviam sido represados pelo governo com vistas à reduzir custos e estimular o investimento e o crescimento econômico. Depois de se manter elevada ao longo do ano, no último semestre de 2016 a inflação apresentou forte desaceleração, o que fez com que o acumulado do ano se mantivesse abaixo do teto da meta, tendo atingido 6,29%. Em 2017, ainda num contexto de forte crise econômica, essa desaceleração se manteve, e mais uma vez o regime de metas de inflação foi violado, então com um acumulado de 2,95%, abaixo
do piso da meta, por conseguinte.

Já em 2018, a despeito do ainda pífio desempenho da economia brasileira, houve uma ligeira aceleração inflacionária, com um acumulado anual de 3,75%. Competiram para esse resultado a elevação dos preços da energia elétrica e dos combustíveis ao longo do ano, a greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio, e a expressiva desvalorização do real até às vésperas das eleições presidenciais.

Nos primeiros meses de 2019 essa tendência inflacionária se mantém (somando 1,68% entre janeiro e março, sempre segundo o IPCA), porém mantido esse ritmo a tendência é a de uma inflação acumulada próxima ao centro da meta, agora de 4,25%. Não obstante, esse tipo de projeção diz muito pouco diante de tantas variáveis que influenciam tal trajetória, e de tantas incertezas em relação ao cenário econômico (e político) atual, com a indefinição em relação aos rumos da Reforma da Previdência e de outras promessas da gestão Bolsonaro, com perspectivas muito pouco promissoras em relação ao desempenho da economia brasileira e da economia mundial, com a ameaça de ataques cambiais contra o real, com as fortes oscilações nos preços internacionais dos combustíveis e assim por diante.

De todo modo, vê-se nos últimos anos uma trajetória inflacionária bastante errática, em grande medida condicionada pela dinâmica da crise econômica que eclodiu no início de 2015. Assim, evidencia-se os limites de se considerar essa trajetória como mero resultado de políticas governamentais deliberadas de defesa do regime de metas.