Por Prof. Dr. Henrique Braga (Coordenador do Subgrupo Política Monetária – Grupo de Conjuntura/Economia/UFES)

Como temos defendido em textos anteriores, a expansão da acumulação de capital tem por pressuposto o crescimento do sistema de crédito, de forma que, por meio dessa chave de leitura, pode-se observar o que ocorreu com o crédito na economia brasileira no ano de 2018. Nesse período, cresceu em 5,5% o saldo total de crédito, sendo que o custo médio do crédito declinou 0,8 pontos percentuais, fechando o ano na casa de 20,5% a.a.. O saldo total do crédito para pessoa jurídica ampliou 1,9%, enquanto o crédito para pessoa física subiu 8,6% Numa primeira visada, os números parecem animadores. Contudo, os dados desagregados indicam cautela. Observando o crédito para pessoa física com recursos livres, nota-se um crescimento de 8,6%, enquanto o crédito com recursos direcionados apresentou uma expansão de 1,9%. Dentro do crédito com recursos livres para pessoa física, destaca-se o aumento de 15% do saldo do cartão de crédito, do crédito para aquisição de veículos, que ampliou em 13,7%, e do crédito pessoal, que cresceu 8,4%. A soma do saldo de crédito dessas modalidades respondeu, em 2018, por 73% do crédito com recursos livres para pessoas físicas. No recurso direcionado para pessoa física, destaca-se o crescimento de 9,2% do crédito rural, e de 4,8% do crédito para o financiamento imobiliário; sendo que essas duas modalidades responderam, em 2018, por 93% do saldo do crédito direcionado à pessoa física.

No crédito para pessoa jurídica com recursos livres, ocorreu uma elevação, em 2018, de 28,6% no crédito decorrente de desconto de duplicatas, de 13,9% no saldo do crédito para financiamento de exportações e de 0,3% no crédito para capital de giro. Juntos esses créditos correspondem a 55% do crédito com recursos livres para pessoas jurídicas. No recurso direcionado, nota-se o crescimento de 4,3% do crédito rural, que responde por 11% do crédito com recursos direcionados para pessoa jurídica. Entretanto, o crédito com recursos do BNDES declinou 8,9%, sendo que esse crédito responde por 68% do total do crédito com recursos direcionados para pessoas jurídicas.

Os números acima ilustram tanto o crescimento dos componentes do crédito vinculados ao consumo, quanto o declínio do crédito destinado ao setor que produz e investe. Nesse particular, pode-se afirmar que o crescimento do saldo total do crédito para pessoa jurídica respondeu ao adiantamento de recebíveis por parte das empresas e pela dinâmica externa, de modo que o baixo dinamismo interno pode ser apontado como o responsável pela situação atual da economia brasileira. Aliás, desde dezembro de 2016, tanto o saldo total do crédito destinado à pessoa jurídica passou a estar num volume menor do que o mesmo indicador para pessoal física, quanto ambos reforçaram suas distintas trajetórias: enquanto o primeiro declinou desde dezembro de 2015, quando atingiu o volume de 1,70 trilhão de reais, chegando ao seu menor volume em fevereiro de 2018 (1,40 trilhão de reais), momento no qual teve leve recuperação (fechou o ano de 2018 com 1,47 trilhão de reais); o segundo manteve, desde 2013, sua trajetória de crescimento, chegando em 1,79 trilhão de reais no final de 2018.

O que esses dados sugerem, portanto, é que o crescimento dos componentes do crédito vinculados ao consumo continua não sendo capaz de reverter a claudicante acumulação de capital no Brasil. Assim, revertê-la exige ampliar tanto a utilização da capacidade instalada quanto o investimento. Contudo, os dados para o crédito no começo de 2019 indicam um piora substantiva da situação, pois há um declínio de 2,1% no saldo total do crédito para pessoa jurídica, enquanto o mesmo indicador cresceu 2,6% para pessoal física, reforçando as dificuldades de restabelecer a acumulação de capital no Brasil, deteriorando nossa posição na divisão internacional do trabalho.