Por Prof. Dr. Vinicius Pereira (Grupo de Conjuntura – Subgrupo Nível de Atividade/Economia/UFES)

O somatório de todos os bens e serviços finais produzidos dentro do território brasileiro (PIB) ao longo de 2018, segundo levantamento do IBGE, totalizou R$ 6,8 trilhões. Isso significa um crescimento de 1,1% quando comparado ao valor obtido ao longo de 2017. Esse resultado morno evidencia a dificuldade de recuperação da economia brasileira e frustra as expectativas elaboradas no início do ano passado, quando se apostava em 2,8% de crescimento. Agropecuária, Indústria e Serviços cresceram, respectivamente, 0,1%, 0,6% e 1,3%, movimento muito tímido para uma economia com elevada taxa de desocupação da mão de obra, 12,3%, e um grave, e histórico, quadro de desindustrialização. Afinal, a indústria de transformação no Brasil, importante motor dinâmico do desenvolvimento econômico nas sociedades capitalistas, fechou o ano passado representando uma participação no PIB da ordem de 11,3%, a menor desde 1947, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria – CNI. Além disso, pesa a instabilidade política e a ausência de uma política industrial ativa, fatores que podem ter influenciado na expectativa dos agentes e, por extensão, na baixa taxa de crescimento do investimento. A formação bruta de capital fixo (FBCF) variou 4,1%, pouco significativo quando se tem como base o ano de 2017, de baixo desempenho e de queda no mesmo indicador, 2,3% em relação ao exercício anterior.

E o ano de 2019 também não começou muito animador, afinal o PIB recuou 0,2% em relação ao último trimestre de 2018, com quedas nos indicadores da indústria (-0,7%) e da agropecuária (-0,5%), segundo o IBGE. Apontando na mesma direção, a CNI registrou queda na produção física industrial da ordem de 1,1%, quando comparados o primeiro trimestre deste ano e o mesmo período do ano anterior, ao passo que o faturamento da indústria caiu 11%, na mesma base de comparação. Assim, segundo a mesma entidade, a utilização da capacidade instalada da indústria brasileira caiu de 77,5%, observados ao final de 2018, para 76,5%, ao final de março do corrente. Altamente dependente da produção e exportação de commodities para a composição do PIB, a economia brasileira sentiu o impacto da suspensão das atividades da mineradora Vale após o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, em janeiro daquele ano.

No entanto, para o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, Carlos von Doellinger, em uma declaração bastante otimista durante a coletiva de imprensa para o lançamento da Carta de Conjuntura Nº 44, publicação trimestral do instituto, neste mês de julho, “caso a reforma (da previdência) seja aprovada no segundo semestre, dependendo do timing,(…) ano que vem (2020) vamos ver a recuperação”. Ao que parece, o otimismo está depositado, em parte, na reforma da previdência, carro chefe da agenda do novo governo e aquela que, segundo o super-ministro, Paulo Guedes, uma vez aprovada, “além de proporcionar economia de R$ 933 bilhões, poderá provocar crescimento sustentável da economia brasileira por dez anos”.

A outra parte da injeção de otimismo, na fala do presidente do Ipea, parece vir do texto do Boletim de Expectativas, também publicado pelo mesmo instituto, em 9 de julho, e assinado por Estêvão Kopschitz Bastos. Como um informativo que apresenta as expectativas do mercado com base no estado das variáveis em 5 de julho do corrente, o técnico de planejamento e pesquisa do IPEA afirma que, apesar das revisões para baixo das projeções do crescimento do PIB para 2019 e 2020, o produto agregado, em 2020, deverá crescer 2,5%. Tal afirmação amparou-se na estatística, até aí tudo bem, e na manutenção de um cenário bem otimista, aí a coisa muda de figura. Tal cenário seria composto por um conjunto de projeções, todas otimistas, e dependentes de uma série de eventos favoráveis, como da continuidade da queda da taxa Selic e da inflação durante os próximos anos, da “estabilidade virtual da taxa de câmbio nos próximos quatro anos”, de um possível superávit primário, talvez, já em 2021, e não apenas em 2022, como aponta o boletim Focus do Banco Central, e por um déficit em conta corrente do balanço de pagamentos para os próximos quatro anos que deverá permanecer dentro de “valores administráveis”.

Mas, o otimismo dessas expectativas, presentes no Boletim, não parece encontrar sustentação na seção de número 1, da Carta de Conjuntura, do mesmo instituto, intitulada Economia Mundial, e assinada por Paulo Mansur Levy, colega de Bastos. Baseado em observações e resultados referentes ao segundo trimestre do corrente, Levy inicia apresentando um cenário, no mínimo, preocupante. Desaceleração da atividade econômica mundial, incertezas em relação ao Brexit, sanções ao Irã, tensões com o agravamento do conflito comercial entre EUA e China, “desaceleração mais intensa” da economia na Área do Euro, bem como na China, além de queda do crescimento da economia estadunidense. Frente a tantas informações indigestas, o citado analista completa com uma preocupação adicional com relação “ao espaço reduzido para a política econômica reagir caso o processo de perda de dinamismo se aprofunde”, afinal, o que fazer se: a taxa de juros, caso da Europa, já se ”aproxima de zero”; os níveis de endividamento, caso China, “tornam arriscado repetir a estratégia de estímulo via crédito”; e a inflação que, ao persistir “em níveis inferiores às metas”, tem levado as autoridades monetárias dos países centrais a reverterem suas estratégias, retardando a alardeada elevação dos juros, como são os casos caso dos EUA e Área do Euro. Mas, para não dizer que não falou de flores, está nessa última observação a única esperança do analista do Ipea em relação ao Brasil, afinal, a ampla liquidez internacional e a não elevação dos juros nos países centrais beneficiarão os países emergentes. Também aponta uma tímida melhora da economia Argentina, dado bastante questionável, diga-se de passagem, especialmente em se tratando de ano eleitoral. Mas, mesmo nesse pequeno espasmo de otimismo, a ameaça ronda a análise de Levy, pois os preços das commodities, nossa maior aposta, têm se comportado, segundo ele, de “maneira volátil” e, assim, ele afirma que um “balanço entre condições financeiras relativamente mais favoráveis e uma economia e comércio mundiais em desaceleração não é totalmente claro”. Enfim, mais nuvens carregadas do que dias claros e ensolarados em sua análise da economia mundial.

Afora otimismos e expectativas, qualquer aquecimento do nível de atividade econômica, e consequente crescimento do PIB, terá de vir do fortalecimento imediato do mercado interno, de maiores recursos e condições de crédito de longo prazo para a o empresariado brasileiro, ou que aqui opera, da qualificação do jovem, do aumento da produtividade do trabalho, de investimentos vultosos em infraestrutura, tecnologia, educação e saúde, da geração de empregos, da elevação do poder de compra da massa dos trabalhadores. Esperar um novo ciclo de commodities é uma aposta bastante otimista, pois o comportamento da economia mundial aponta em outro sentido. Prever estabilidade de alguns indicadores ao longo dos próximos anos também é possível, pois a todos é dado o direito de sonhar. Frente à realidade da dominância do rentismo, da volatilidade das taxas internacionais de juros e da crise do capital neste primeiro terço do século XXI, precisaremos mais do que otimismos da parte de economistas e gestores para fazer nosso PIB crescer.