Gustavo Moura de Cavalcanti Mello

 

Depois de uma expressiva elevação inflacionária, ocorrida entre o final de 2014 e meados de 2016, verificou-se no Brasil uma tendência geral à desaceleração dos preços, fazendo com que a inflação medida pelo IPCA, por exemplo, permanecesse abaixo do centro da meta da inflação em 2017 e 2018, o que também deve se repetir em 2019. Em comparação com 2018, a inflação em 2019 diminuiu, de tal forma que o acumulado do IPCA até o mês de setembro foi de 2,49%, menor que o verificado no mesmo período de 2018, 3,34%.

Em contraste com a narrativa oficial, esses níveis historicamente baixos de inflação redundam, em grande medida, da retração econômica ocorrida no bojo da crise deflagrada no último trimestre de 2014, bem como da sempre frustrada recuperação da economia, de tal forma que ainda hoje o PIB per capita brasileiro é praticamente 9% menor do que aquele estimado às vésperas da crise. Nesse quadro, um crescimento previsto do PIB de 0,9% é vendido como um sinal de uma prosperidade vindoura, e não como um rotundo fiasco das promessas feitas desde o governo Temer.

Como é sabido, a inflação tende a produzir perversos efeitos distributivos, em particular numa economia fortemente oligopolizada. Em regra os mais penalizados num contexto fortemente inflacionário são aqueles que perfazem as camadas mais pauperizadas da população, que veem sua capacidade de compra carcomida pela elevação de preços (em taxas muito superiores ao crescimento de seus rendimentos), enquanto que os grandes produtores e fornecedores de mercadorias e serviços mais que compensam a inflação prevista ao aumentar o preço de suas mercadorias em um ritmo superior ao crescimento potencial de seus custos.

Dessa forma, tomada isoladamente, a baixa inflação verificada nos últimos anos parece uma excelente notícia justamente para a população economicamente mais vulnerável. Porém ela é particularmente saudada por aqueles que se refestelam nos mercados financeiros, tendo em vista que a inflação tende a retrair seus rendimentos e a incrementar as incertezas, limitando o horizonte temporal e dificultando os cálculos que orientam suas apostas.

Logo, uma inflação baixa e estável catapulta os rendimentos nos mercados financeiros, e favorece a canalização dos capitais para essa esfera. Tal tendência pode obstaculizar a realização de investimentos produtivos, reforçando esse sofrível quadro econômico que, não obstante, favorece largamente os grandes grupos econômicos, que, sem exceção, encontram nas finanças uma fonte fundamental de rendimentos. Daí a convergência geral do empresariado quando se trata de políticas que jogam água no moinho da especulação financeira, o que revela o anacronismo da tradicional clivagem entre empresários produtivos e financistas.

Ademais, em um contexto de constrição da arrecadação tributária e de forte dependência de atração de capitais voláteis, diante dos crônicos déficits do balanço de pagamento, vê-se a canalização de montantes estratosféricos de recursos estatais para garantir a remuneração desses capitais, o que de modo algum aponta para a reversão dessa espiral de endividamento. Os ditos recursos são oriundos de uma estrutura tributária fortemente regressiva, mas também da dilapidação das políticas sociais (condenadas à inanição pela Emenda Constitucional n. 95, entre outras medidas institucionais) e da capacidade de investimento estatal (que, segundo a previsão orçamentária do Ministério da Economia, terá em 2020 o menor montante já registrado, abaixo dos R$ 20 milhões). E, segundo os anúncios governamentais, tais medidas de austeridade estão apenas começando…

Essa dinâmica, por conseguinte, possui efeitos econômicos e distributivos perversos, sobre os quais pouco se fala. O grosso da população brasileira e, sobretudo os mais pobres, são espoliados para alimentá-la, padecendo com suas consequências na forma de desemprego em massa, repressão salarial, endividamento crescente, e assim por diante. Logo, ao situarmos a trajetória inflacionária nesse quadro mais amplo, vemos que tais camadas da população não possuem muitos motivos para engrossar as comemorações dos rentistas.